Tales Matta.
Capítulo 2 de 10 A FIFA tem mais membros que a ONU. E isso é um mapa do poder

2. Revisão de literatura

2.1 Reconhecimento no direito internacional

O direito internacional discute há um século o que faz de um território um Estado. A referência canônica é a Convenção de Montevidéu (1933): o artigo 1º lista quatro critérios (população permanente, território definido, governo e capacidade de se relacionar com outros Estados) e o artigo 3º crava a posição chamada declaratória, segundo a qual "a existência política do Estado é independente do seu reconhecimento pelos demais". A posição rival, constitutiva, sustenta o contrário: é o reconhecimento alheio que constitui o Estado como membro da sociedade internacional. Na prática contemporânea, as duas convivem mal: Kosovo satisfaz os critérios de Montevidéu e mesmo assim não tem assento na ONU, porque reconhecimento também é política, e no caminho para o Conselho de Segurança há veto.

2.2 Nacionalismo e diplomacia esportiva

A segunda perna da revisão vem da literatura sobre nacionalismo e esporte. Benedict Anderson (1983) definiu a nação como comunidade imaginada: grande demais para que seus membros se conheçam, ela precisa de artefatos que a tornem visível a si mesma, e poucos artefatos fazem isso com a eficácia de uma seleção (onze corpos com o mesmo escudo, um hino, uma torcida que se reconhece). Max Weber (1919) caracterizou o Estado pelo monopólio do uso legítimo da força num território; a seleção nacional oferece a versão simbólica e barata desse monopólio, o monopólio da representação num gramado. A literatura de diplomacia esportiva (Murray, 2018) descreve o uso deliberado do esporte por atores estatais e não estatais para avançar reconhecimento, imagem e vínculos; e o levantamento de Menary (2007) sobre "as terras que a FIFA esqueceu" documentou o limbo de quem fica fora do sistema.

2.3 A economia política da FIFA

Uma terceira linha de literatura, menos citada nesse debate específico, trata a FIFA não como árbitro neutro, mas como ator com interesse próprio. Jennings (2006) e Sugden e Tomlinson (1998) documentaram como, na era Havelange-Blatter, a expansão do número de associações filiadas serviu a um propósito concreto de governança interna: mais membros pequenos significam mais votos no Congresso, e o programa de desenvolvimento da FIFA (Goal Programme) distribuiu recursos a essas associações de forma que investigações posteriores (Pieth, 2014, no relatório da comissão independente de governança) associaram a fidelidade de voto. Sob essa leitura, a FIFA tem incentivo institucional para maximizar sua própria base de membros, independentemente da demanda por reconhecimento das entidades de fora. O que este texto acrescenta às três linhas é testá-las explicitamente uma contra a outra, em vez de tratar "a FIFA reconhece quem quer ser reconhecido" como a única explicação disponível.