Tales Matta.
Capítulo 7 de 10 A FIFA tem mais membros que a ONU. E isso é um mapa do poder

7. Discussão: três capacidades de uma ordem paralela

A divergência dos mapas seria apenas pitoresca se a FIFA fosse um clube privado sem consequência. Não é, e três capacidades o demonstram. A primeira é normativa: a FIFA impõe regras a Estados soberanos. Em 2012, o Brasil aprovou a Lei Geral da Copa (Lei 12.663/2012), alterando a própria legislação para, entre outras coisas, suspender a proibição de bebida alcoólica em estádios (a chamada "Lei da Budweiser") e conceder isenções fiscais e alfandegárias, porque a entidade exigia essas garantias como condição para sediar o torneio. Nenhum país aceita isso de outro país; aceita da dona da Copa.

A segunda é sancionatória: em 28 de fevereiro de 2022, quatro dias após a invasão da Ucrânia, FIFA e UEFA suspenderam todas as equipes e clubes russos de todas as competições "até segunda ordem" (não, como às vezes se repete, "com efeito imediato" — a suspensão foi decidida naquele mesmo dia, mas o comunicado oficial usou outra formulação), antes de boa parte das sanções estatais sair do papel. Para um Estado, sumir do maior palco do planeta é uma punição que a população inteira sente na hora, o que não se pode dizer da maioria das resoluções da ONU.

A terceira é constitutiva no sentido forte: no congresso da FIFA vale um voto por associação, o Brasil vale o mesmo que San Marino, e a admissão (ou expulsão, como Zanzibar aprendeu) de um membro redesenha na prática quem existe no mapa do futebol, à revelia de qualquer Conselho de Segurança. As três capacidades juntas mostram por que os casos de divergência da seção 5 não são anedota: são o rastro visível de uma organização que se comporta, em escala menor e sem exército, como uma ordem internacional paralela.