Tales Matta.
Capítulo 5 de 10 A FIFA tem mais membros que a ONU. E isso é um mapa do poder

5. Evidência: doze casos de divergência

A diferença de 18 membros entre FIFA (211) e ONU (193) não é erro de contagem, é um padrão com pelo menos quatro tipos de caso. A Tabela 2 reúne doze deles.

EntidadeStatus na ONUStatus na FIFA/confederaçãoO que o caso mostra
Ilhas Faroenão é membro (parte da Dinamarca)FIFA desde 1988, UEFA desde 1990território autônomo com filiação esportiva plena; herança pré-2004
Kosovonunca formalizou candidatura, dissuadido por veto russo esperadoFIFA desde 13/5/2016, por 141 votos a 23a exceção pós-2004 mais citada; entrada exigiu votação de Congresso, não crivo automático
Palestinaobservadora não membro desde 2012 (Resolução 67/19)membro pleno da FIFA desde 8/6/199814 anos de vantagem esportiva sobre o status diplomático
Mônacomembro pleno desde 1993nunca ingressou na FIFAo caso inverso: soberania plena, ausência esportiva voluntária
Gibraltarnão é membro (território britânico ultramarino)FIFA desde 13/5/2016, após decisão do TAS de maio de 2016 obrigar o Comitê Executivo a levar o pedido ao Congressoentrada não veio da FIFA, veio de tribunal externo forçando a mão da entidade
Chinese Taipeifora desde 1971 (Resolução 2758)acordo de nomenclatura fechado no Congresso da FIFA de 7/7/1980compromisso esportivo levou quase uma década para se cristalizar após a saída da ONU
Hong Kongnão é membro (região administrativa da China)FIFA desde 1954, associação distinta da chinesa desde a era colonialfiliação anterior à própria criação da República Popular como a conhecemos hoje na ONU
Kiribati e Tuvalumembros plenos da ONU (1999 e 2000)fora da FIFA (Tuvalu é membro pleno só da OFC continental)o padrão inverso: soberania plena sem apetite ou capacidade de entrar no sistema global do futebol
Sudão do Sul193º membro da ONU, 14/7/2011FIFA desde 25/5/2012, por 176 votos a 4a sequência "normal": cerca de 10 meses entre os dois reconhecimentos, contra 14 anos no caso palestino
Chipre do Norte (RTCN)não reconhecida (exceto pela Turquia)fora da FIFA; acordo de integração de 2013 fechado em Zurique (testemunhado por Blatter e Platini) nunca implementadoreconhecimento simbólico negociado e assinado, mas travado por resistência política do lado cipriota-grego
Saara Ocidental (RASD)não é membro; reconhecida por ~80 Estados bilateralmentepedido de filiação rejeitado pela CAF em junho de 2023, citando estatuto de 2021 que exige reconhecimento pela ONUreconhecimento por outro organismo internacional (a própria União Africana, desde 1984) não bastou para entrar no futebol
Zanzibarnão é membro (parte da Tanzânia)admitida como 55ª membro da CAF em março de 2017; expulsa quatro meses depois, em julho de 2017, por falta de soberaniaconcessão e reversão em menos de um ano: a prova mais direta de controle ativo, não passivo, do lado da entidade que concede
Tab. Tabela 2 — Casos de divergência entre o sistema FIFA e o sistema ONU Fontes: registros oficiais de admissão da FIFA e confederações continentais; ver Referências para cada caso. Nota: a Groenlândia, com estatuto constitucional idêntico ao das Ilhas Faroe (território autônomo dinamarquês), teve pedido de filiação rejeitado pela CONCACAF em 2025 e não pode buscar a UEFA porque o estatuto da entidade exige nação reconhecida pela ONU — um contraponto direto ao caso das Faroe na primeira linha desta tabela.

Dois casos merecem o zoom que a tabela não comporta. O primeiro é Gibraltar. A sequência real é mais reveladora do que a versão simplificada que circula: o território conquistou a filiação na UEFA em 2013 após vitórias jurídicas anteriores, mas o Comitê Executivo da FIFA recusou-se a levar o pedido de filiação global ao Congresso em setembro de 2014. Só em 2 de maio de 2016 o Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) determinou que a FIFA transmitisse o pedido "sem demora", e a admissão efetiva veio por votação do Congresso, em 13 de maio de 2016, no mesmo encontro que admitiu Kosovo. A entrada não foi um gesto de abertura da FIFA, foi uma ordem judicial cumprida a contragosto.

O segundo é Zanzibar. Em março de 2017, a Confederação Africana de Futebol (CAF) admitiu Zanzibar como sua 55ª associação-membro. Quatro meses depois, em julho de 2017, a CAF revogou a filiação: o presidente da entidade, Ahmad Ahmad, declarou que a região nunca deveria ter sido admitida por não ser uma nação soberana, e a CAF justificou a reversão afirmando que "a definição de país vem da União Africana e das Nações Unidas". Não é um caso de porta fechada por inércia, é controle ativo e bidirecional: a mesma entidade que admite também expulsa, em questão de meses, quando decide que errou.