Tales Matta.
Capítulo 10 de 10 Por que Trump apostou no UFC para vencer a eleição de 2024

10. Conclusão

A resposta à pergunta de pesquisa que abriu este texto: o sportswashing, tal como a literatura o descreve, pressupõe um ator buscando legitimidade diante de uma audiência externa ou internacional. O caso Trump-UFC mostra uma variação doméstica desse instrumento, na qual o alvo não é a opinião internacional, mas um segmento específico e mensurável do próprio eleitorado, e no qual o mecanismo de transmissão é menos o simbolismo do esporte em si e mais o acesso à infraestrutura de mídia alternativa que esse esporte, e as figuras a ele associadas, souberam construir. As três hipóteses testadas neste texto não competem de forma excludente: a afinidade pessoal genuína entre Trump e o ecossistema do UFC (H2) forneceu a base sobre a qual a campanha construiu uma amplificação calculada (H1), transmitida através do canal que realmente moveu a agulha, o acesso a uma rede de mídia alternativa que já concentrava o público que a campanha precisava alcançar (H3).

A contribuição deste texto foi reconstruir essa aliança com uma linha do tempo verificada, corrigir números que circulavam de forma imprecisa na cobertura popular do caso, e testar três explicações concorrentes em vez de assumir a mais citada como autoevidente. A explicação mais bem sustentada não é a mais simples ("Trump lavou sua imagem com o brilho do UFC"), é mais estrutural: um eleitorado jovem que já migrou para um ecossistema de mídia que a política tradicional não alcança, e uma campanha que soube, com a ajuda de aliados genuínos dentro desse ecossistema, chegar lá primeiro.

Fica a pergunta que este texto não resolve e que estudos futuros deveriam perseguir: se o mecanismo real é acesso a mídia alternativa, e não o esporte como símbolo, o que explica a escolha do UFC especificamente, e não de outro polo de mídia jovem masculina qualquer? A resposta mais provável, este texto sugere sem poder provar, é que o esporte ainda importa como o único espaço onde o gesto físico, real, sem roteiro (um nocaute, uma dança, um cinturão entregue nas mãos) pode ser filmado, viralizado e repetido de um jeito que nenhum discurso político consegue replicar.

Referências

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