2. Revisão de literatura
2.1 Soft power e sportswashing
O ponto de partida é Joseph Nye, que cunhou soft power no início dos anos 1990: a capacidade de obter os resultados desejados por atração, não por coerção ou pagamento (Nye, 2004). Sportswashing é uma aplicação especializada dessa lógica, o uso deliberado do brilho do esporte para redirecionar atenção e construir narrativas positivas em torno de um ator político ou corporativo. O caso fundador que a literatura mais cita são os Jogos Olímpicos de Berlim em 1936, quando o regime nazista usou o alcance do evento para projetar uma imagem de modernidade e eficiência enquanto escondia uma política repressiva (Boykoff, 2023).
Grix e coautores ampliam a definição para além de regimes autoritários, incluindo corporações que investem em esporte para desviar o foco de práticas questionáveis em suas operações de origem (Grix, Dinsmore & Brannagan, 2023). Skey acrescenta um ponto importante: sportswashing nem sempre é sobre esconder uma controvérsia específica, é frequentemente sobre construir associações positivas que reforcem uma narrativa desejada, independentemente de haver algo concreto a esconder (Skey, 2022). Essa distinção importa para o caso deste texto, no qual não há um escândalo único sendo mascarado, mas uma imagem sendo deliberadamente construída para um público específico.
2.2 A lacuna democrática
A literatura de sportswashing concentra-se quase inteiramente em regimes autoritários usando megaeventos e clubes de futebol para projetar legitimidade internacional. Há uma lacuna dupla no que ela não cobre bem. A primeira é geográfica e política: existe pouco trabalho sistemático sobre como democracias consolidadas usam a mesma lógica, e menos ainda sobre o uso doméstico dessa ferramenta, voltado para o próprio eleitorado, não para a opinião internacional. A segunda é de escala do ator: a literatura trata principalmente de Estados e corporações comprando ativos esportivos (clubes, sedes, patrocínios), não de um candidato individual usando uma relação pessoal e midiática com uma organização esportiva como vetor de campanha.
Essa lacuna dupla é precisamente o espaço que o caso Trump-UFC ocupa. Chehabi já havia notado, duas décadas antes, que o esporte permite acesso a públicos e atores-chave difíceis de alcançar por outros meios (Chehabi, 2001), e Murray descreveu megaeventos esportivos como responsáveis pelas maiores audiências da história da mídia, o que os torna particularmente atrativos para diplomacia pública (Murray, 2012). Nenhum dos dois, porém, escreveu pensando num candidato presidencial usando um podcast hospedado por uma organização esportiva para contornar a imprensa tradicional. É essa mediação por plataforma, e não apenas por evento esportivo, que este texto argumenta ser central ao caso e subteorizada na literatura.
2.3 O argumento da mídia fragmentada
Uma segunda linha de literatura, menos frequentemente cruzada com a de sportswashing, trata da fragmentação do consumo de notícias. O Pew Research Center, em parceria com a Knight Foundation, documentou em 2024 que 38% dos americanos entre 18 e 29 anos dizem se informar regularmente por meio de "influenciadores de notícias" nas redes sociais, contra apenas 8% dos americanos com 65 anos ou mais (Pew Research Center, 2024). Esse dado não é sobre esporte, mas é decisivo para o argumento deste texto: se o público jovem já migrou para podcasts e redes sociais como fonte primária de informação política, um candidato que aparece nesses espaços não está necessariamente fazendo sportswashing no sentido clássico (redirecionar atenção de uma controvérsia via esporte), pode estar simplesmente indo aonde o eleitor já está. Mattern (2005) já alertava que soft power não é tão "soft" quanto parece, e que a atração tem componentes de força representacional que a literatura clássica subestima; o mesmo vale, este texto argumenta, para a distinção entre sportswashing e simples presença estratégica em plataforma.